Os meus nunca me bateram, nem nunca levei reguadas na escola.
No 4° ano levei a primeira estalada da professora que mais gostei.
Ela gostava de mim, por eu me chamar Carina e porque tinha alguém na família com o mesmo nome.
A casa da professora era perto da escola e ela pediu-me para ir bater a sua porta para irmos juntas para a escola. Assim lá ia eu...ela era uma pessoa muito amável e gostava mesmo do que fazia.
Na altura ela já deveria ter uma idade jeitosa, pois já tinha o cabelo grisalho, não sei se já faleceu, mas eu recordo-a com carinho.
Na altura do estalo, a professora pediu-nos para pintar um desenho e eu quando estou a pintar, desligo de tudo o que se passa á minha volta. Eu queria pintar o desenho com as cores certas e a combinarem umas com as outras. Nestes casos é preciso tempo para sair uma bela pintura.
Era um desenho parecido, com muitos pormenores para pintar, só que era mais natalício.
Saí do meu mundo, quando sou surpreendida pela professora postada á minha frente e a gritar comigo " Tu ainda estás a pintar, os teus colegas já acabaram" pimba uma estalada bem forte. Arrancou-me a pintura das mãos e continuou a gritar " Ainda tens que decorar o poema, para irmos declarar a sala ao lado".
Não deitei uma lágrima, o meu orgulho era mais forte. Decorei o poema e fui com a turma declamar o poema sem problemas.
Apartir desse momento (estávamos na época natalícia) nunca mais fui buscar a professora a casa.
Depois de sair do quarto ano, vi-a algumas vezes e ela fazia uma festa quando me via e eu também.
Depois desta história toda, durante muitos anos ainda me lembrava do poema que fomos declarar. Agora só me lembro da primeira quadra, era assim:
"Batem leve, levemente
Como quem chama por mim
Será chuva? Será gente?
Gente não é certamente
E a chuva não bate assim"

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